sábado, 15 de fevereiro de 2014

Prefácio do livro Gaúcho de Fronteira

Prefácio do livro "Gaúcho de Fronteira, uma análise sobre sua representação Simbólico-Cultural"


Fronteira em debate: 
olhares sobre a identidade gaúcha


Ao examinar o que designa por comunidades imaginadas, Benedict Anderson coteja o processo de sentimento e consciência nacional na Europa e na América. Para o autor, na Europa, a entronização da imprensa no tecido social acabou por fragmentar a unidade estabelecida pelo latim, além do desgaste do poder religioso, enfraquecido, também, pela ascensão das línguas vernáculas. Por outro lado, na América, a concepção de nacionalidade vinculava-se a um sentimento telúrico, ou ainda, a uma estrutura horizontal de sociedade na qual os projetos, a despeito das diversidades sociais dos indivíduos, possibilitavam a ideia imaginada de um passado partilhado e comum, limitado territorialmente por um continente em formação.
Essa relação entre a terra de origem e o sentimento que ela provoca afigura-se como um tema de extrema relevância na contemporaneidade. Numa época em que “nossas raízes viraram rotas”, como define Stuart Hall, ou ainda, em um tempo em que há, inegavelmente, uma perda  da  relação  “natural”  da  cultura  com  os  territórios  geográficos  e  sociais, como define Néstor Canclini, a pergunta que se impõe é: que percursos de análise devemos seguir?

Mais complexo ainda torna-se uma reflexão sobre território (simbólicos, geográficos e culturais) se englobarmos o gentílico “gaúcho”, expressão sobejamente debatida e cujo tema é cercado por manifestações, não raramente, passionais. Nesse sentido, o mérito do trabalho de Fábio Gudolle e Cezar Rodrigues está na ousadia em discutir um assunto que, apesar das inúmeras referências, ainda é cercado de controvérsias.

Para além disso, a fluidez das fronteiras e suas possíveis definições como não-lugar (Marc Augé) ou lugar de passagem, talvez dê pistas sobre como compreender a identidade do gaúcho na contemporaneidade. Identidade em crise - é bem verdade. Se por um lado, a relação entre a gauchidade vincula-se ao território e à imagem do passado e da memória e da cultura em comum; por outro, a pós-modernidade tenciona para a fragmentação do sentimento telúrico e para a busca pela integração a um eterno presente e a uma promessa de inserção global. Para onde ir, então?

Nossa identidade de fronteira explica, de certo modo, quem somos, por meio de uma extensa cadeia de negações que também são fluidas. Isso significa dizer que ser gaúcho é um pouco ser (e não ser) argentino, uruguaio e brasileiro. Nossa identidade, portanto, configura-se na positividade e na diferença com nossos vizinhos. No cerne desse debate tão prolífero quanto polêmico está o livro de Gudolle e Rodrigues que nos serve como uma leitura provocativa e especular que mais do que fornecer respostas nos encaminha a novas perguntas ao som da música nativista e da diversidade étnica e cultural que, orgulhosamente, nos constitui.

Marcelo Rocha
Professor Adjunto da Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Autor de “Não ouça tão depressa toda essa dissonância” (Rígel, 2010) e “No reino da serpente: ideologia, transgressão e leitura em Pedro Juan Gutiérrez” (Publit, 2008), entre outros. Líder do Grupo de Pesquisa em História da Mídia (Unipampa/Cnpq).

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